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terça-feira, 28 de julho de 2015

O parto é teu

por Cláudia Rodrigues
O parto é teu, só teu Acordou sentindo uma dorzinha diferente, percebeu que parecem contrações, está mais molhada ou sente que algo escorreu. Dê uma espiada, é água clarinha, sem cheiro e sem cor...Segue a vida, vai passar roupinha, fazer um pudim, um brigadeiro, uma imensa salada de frutas. Ou vai passear, assistir a molecada brincar na rua. Vai dormir, distrair a mente sentindo seu corpo trabalhar. Ele vai trabalhar, ele não precisa que inventes uma dor maior, só precisa que estejas sentindo e folgando, esperando e nutrindo-o. Nunca chama ninguém para te ver enquanto estás ciente de que podes dar conta de tuas sensações. Vive tuas sensações, respira tuas sensações, permite que elas aumentem, progridam, se revelem maiores e mais intensas sem plateia. Parto não é show, trabalho de parto muito menos. Procura não imaginar nada, apenas recebe teu corpo em movimento. A hora de chamar alguém ou ir para o hospital é a hora do apelo, um pouco antes do desespero. Não inventa um desespero, não maximiza as sensações denominando-as como dor. Escolhe parir com uma boa assistência mas como se ela não existisse de fato. Sinta-te só, estás te preparando para salvar e salvar-se na luta pela sobrevivência e isso só diz respeito a ti. O parto é um ato solitário, ele ocorre por meio do teu corpo e tudo que realmente precisas é ter muita intimidade com ele. Todo resto é detalhe.

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