Páginas

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Fatores econômicos predominam na escolha por cesárea

Estudo realizado pela UFMG mostra que remuneração médica e renda da paciente se sobrepõem aos indicativos médicos.
Priscilla Borges, iG Brasília | 29/12/2011 12:27



Foto: Getty Images/Stockbyte Silver/John Foxx

Gravidez: parto natural não é incentivado pelos médicos, aponta pesquisa

As cesarianas representam mais da metade dos partos feitos no Brasil, mas, ao contrário do que deveria, a justificativa para a realização desse tipo de parto não é clínica.

A conclusão é um estudo realizado na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). A economista Tabi Thuler, autora da dissertação Evidências de indução de demanda por parto cesáreo no Brasil, concluiu que fatores econômicos – de médicos e pacientes – têm sido a principal influência nessa decisão.

Segundo Tabi, a remuneração recebida pelos médicos pelas cesáreas aparece como fator mais “determinante” na escolha do tipo de parto. A análise foi feita com base nos partos realizados por um plano de saúde do estado de São Paulo entre 2004 e 2009. A conclusão é a de que, quanto maior a diferença de valores entre os partos cesarianos e normais, mais cesarianas foram feitas. Nesse caso, a remuneração paga por cesáreas era mais alta.

“Queríamos compreender se havia uma ‘indução de demanda’ para justificar o crescente aumento do número de cesáreas no Brasil. Não encontramos nenhum estudo com o olhar econômico sobre o assunto”, diz.

Tabi conta que já esperava encontrar sinais de que há “incentivos” econômicos para que os médicos optem por realizar partos cesáreos e não normais. Ela se impressionou, no entanto, por não ver os fatores clínicos entre os principais.

A economista explica que os riscos de complicações para mães ou bebês não tiveram influência significativa nas opções feitas pelos médicos do plano de saúde pesquisado. “Foi inesperado”, admite ela. Na base de dados utilizada por Tabi, mais de 90% dos partos feitos nesse período de cinco anos eram cesarianas. Ela só considerou no estudo os procedimentos feitos por médicos que haviam realizado cesáreas e partos normais no período.

Além disso, a renda da paciente apareceu como outro forte indicativo para o parto cirúrgico. Quanto maiores os ganhos da mãe, mais a cesariana aparece como opção. O número desse tipo de parto na capital também foi maior que no interior.

“Espero que o estudo ajude nos debates sobre o gasto que estamos fazendo com saúde e como reverter a quantidade imensa de cesarianas feitas no País”, afirma.

52% dos 3 milhões de partos feitos no País em 2010 foram cirúrgicos. A recomendação da OMS é que esse número não supere os 15%.

Para a Federação Brasileira de Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo), reverter o cenário brasileiro será difícil. Segundo dados recentes divulgados pelo Ministério da Saúde, 52% dos 3 milhões de partos realizados no País em 2010 foram cirúrgicos. A recomendação da Organização Mundial de Saúde é que esse número não supere os 15%. Há dez anos, em 2000, elas representavam 38% dos partos realizados no País.

“Tornou-se cultural a opção pela cesariana, por causa de múltiplas variáveis, mas as mais relevantes são a remuneração médica e a cultura da mulher, que não quer sentir dores. Isso só vai mudar com uma educação em saúde pública maciça para todos os brasileiros, de todas as classes sociais”, ressalta o presidente da Comissão de Gestação de Alto Risco da Fegrasgo, Denis José Nascimento.

Nascimento, que coordena o Departamento de Tocoginecologia da Universidade Federal do Paraná (UFPR), lembra que os planos de saúde pagam muito pouco aos profissionais. A dedicação que exige um parto normal então, segundo ele, não é valorizada.

“Não tem estrutura que pague um profissional que se dedique a ficar horas e horas a fio ao lado da paciente”, diz. E as mulheres, de acordo com ele, passaram a participar mais da decisão e também querer a comodidade da cesárea.

Nenhum comentário: