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segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Cesarianas contribuem com a obesidade

A opção pelo parto cirúrgico pode ser uma das causas do sobrepeso da população adulta

por Marco Antonio Barbieri e equipe*

Quem nasceu de parto cesariana tem 58% mais chances de ser obeso, quando adulto, do que aqueles que vieram ao mundo por parto normal. Uma das explicações para isso pode ser a alteração no desenvolvimento, ou na composição da microbiota intestinal, também conhecida como flora, que é diferente nas crianças que nascem de parto vaginal. Isso porque, na cesariana, o bebê não tem nenhum contato com a vagina materna, que concentra micro-organismos importantes para a flora intestinal da criança. Este contato parece ser importante para o desenvolvimento da flora intestinal do recém-nascido. Algumas bactérias presentes no canal do parto teriam efeito benéfico por estimular o sistema imunológico do recém-nascido. Sem isso, a maneira como acolhemos e armazenamos energia é afetada e há um impacto sobre o surgimento da obesidade.
Isso é o resultado da pesquisa que concluímos há pouco na Faculdade de Medicina da USP de Ribeirão Preto. Usamos informações de um grupo de bebês nascidos em Ribeirão Preto, interior de São Paulo, entre junho de 1978 e maio de 1979. No momento do parto, foram coletados dados das mães e dos filhos. De abril de 2002 a maio de 2004, ou seja, quando os filhos já tinham entre 23 e 25 anos de idade, usamos dados de 2.057 deles e fizemos uma análise do estilo de vida e avaliação antropométrica (levando em conta a prática de
exercícios físicos e questões socioeconômicas).




A questão da obesidade não é a única quando se relaciona a forma do nascimento com as características futuras. Outros estudos já revelaram que alterações na microbiota intestinal podem estar ligadas a algumas condições inflamatórias crônicas comuns. Além da própria obesidade, doença de Crohn e até a diabetes. Alguns estudos também mostraram que a presença de bactérias intestinais durante os 3 primeiros dias de vida foram influenciadas pelo tipo de parto. Ficou evidente uma ausência substancial de bactérias que podem ter um impacto significativo sobre as funções imunológicas do bebê.

Vale lembrar ainda que o aumento das taxas de cesariana ocorreu em paralelo com o aumento das taxas de obesidade. Na Inglaterra, Suécia e Estados Unidos, por exemplo, os índices de cesarianas passaram de 6%, 8% e 10%, em 1975, para 21%, 16% e 24%, em 2001, respectivamente. Em Ribeirão Preto, a taxa de cesariana aumentou de 30%, em 1978, para 51%, em 1994. Hoje está em torno de 60%. Já a taxa de obesidade no Brasil aumentou de 4%, em 1974, para 11% em 2006. Uma vez que a colonização intestinal pode ter um efeito duradouro na saúde, concluímos que o aumento das taxas de cesariana pode desempenhar um papel fundamental na epidemia de obesidade no mundo.

Marco Antonio Barbieri (coordenador), Helena Ayako Sueno Goldani, Heloisa Bettiol, Antonio Augusto Moura da Silva, Marilyn Agranonik, Mauro Moraes e Marcelo Goldani, do Núcleo de Estudos da Saúde da Criança e do Adolescente da Faculdade de Medicina da USP de Ribeirão Preto .

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