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quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Orquestra harmônica do parto por Mayra Calvette

Podemos comparar o processo de nascimento a uma orquestra, onde há um maestro (cérebro), que conduz a melodia (trabalho de parto) e regula o tempo, o pulso, a amplitude e a textura da música (a secreção hormonal, o ritmo e intensidade das contrações). O maestro rege o conjunto em busca da harmonia da melodia. A plateia aprecia vislumbrada tamanha perfeição. Aprecia e não interfere. A plateia, se comparada aos profissionais que atendem o parto, deveria apreciar a mulher em trabalho de parto, sem interferir na perfeição que é esse processo. Imaginem se cada um da plateia quisesse mudar algo durante um concerto? Com certeza a perfeição da melodia seria perturbada e é isso o que acontece com a grande parte das mulheres durante o trabalho de parto.

A maioria das mulheres dá à luz em condições que interferem no equilíbrio da melodia. Durante a relação sexual, o parto a e amamentação, que são momentos de trocas e amor, estão envolvidos hormônios que fazem parte de um todo, como a ocitonina, conhecido como hormônio do amor, e as endorfinas, que são hormônios do prazer e analgésicos naturais.

O nosso maestro é nosso cérebro, que regula nosso sistema conforme a necessidade. Nós, seres humanos, possuímos um cérebro primitivo e um cérebro racional, o neocórtex. O cérebro primitivo, que dividimos com os demais mamíferos, coordena nossas funções vitais, instintivas e é maestro da orquestra hormonal. O neocórtex é o cérebro que nos diferencia dos demais animais pela capacidade racional e intelectual. Quando este cérebro racional está super ativo, ele tende a inibir o cérebro primitivo.

As circunstâncias em que o parto acontece são muito importantes para que aconteça essa orquestra hormonal. Muitas intervenções que acontecem durante o parto acabam interferindo no processo natural do nascimento, reduzindo a liberação desses hormônios e dificultando a vivência plena, o êxtase, a sensualidade e o prazer do parto. Estímulos externos, como luzes fortes, linguagem racional, insegurança e medo dificultam a entrega, o desligar-se do mundo externo e a entrada em outro nível de consciência, ou como dizemos durante o trabalho de parto, na “partolândia”.

O parto é de natureza sexual. Uma mulher em trabalho de parto emite sons muito semelhantes aos sons emitidos durante uma relação sexual. Imaginem se nesse momento há alguém observando, pressionando e inibindo o casal? Nessas circunstâncias torna-se muito difícil conseguir relaxar e o mesmo acontece com uma mulher em trabalho de parto, pois os mesmos hormônios e órgãos estão envolvidos, o bebê é gerado e nascerá por mecanismos muito semelhantes.

Durante a relação sexual, a ocitocina chega a seu pico no momento do orgasmo e tem como função a ejeção do esperma e provocar as contrações interinas na mulher, no sentido de trazer o esperma para dentro do útero para haver a fecundação. As relações também liberam altos níveis de endorfinas, que são similares à morfina, e promovem a sensação de prazer e dependência, como se fosse uma recompensa para a sobrevivência e perpetuação da espécie.

No trabalho de parto, a ocitocina tem como função provocar as contrações uterinas que dilatarão o colo do útero e permitirão a saída do bebê. A ocitocina está em alta logo após o parto, sendo que esse hormônio induz o comportamento maternal, sendo conhecido como o hormônio do amor. Ele também gera contrações uterinas quem previnem hemorragia. Já a ocitocina sintética, comumente utilizada durante o trabalho de parto, inibe a produção da ocitocina natural e age localmente no útero para aumentar as contrações. Ela não possui os outros benefícios da ocitocina produzida pelo corpo e não respeita o tempo e a necessidade de cada mãe e bebê.

As endorfinas, durante o trabalho de parto, servem como analgésicos naturais e ajudam a mulher a entrar em estados alterados de consciência. Logo após o parto, ela gera um estado de relaxamento, prazer e também de dependência mútua entre mãe e bebê. Esse momento é reconhecido por ter extrema importância para o estabelecimento da relação entre mãe e filho.

A adrenalina é somente liberada nos estágios finais do trabalho de parto, como uma injeção de energia. É por isso que as mulheres têm a necessidade de se agarrar em algo, ficar na posição vertical, gemer, empurrar o bebê. Elas estão alertas para, logo após o parto, proteger seu bebê de eventuais predadores (necessário para os demais mamíferos). A adrenalina também deixa o bebê alerta, com os olhos abertos para reconhecimento mútuo entre mãe e filho. Muitas mulheres têm dificuldade de descansar após o parto, por estarem super alertas e super protetoras, acordando de hora em hora para ver se seu bebê está bem e seguro.

Se a adrenalina, que é secretada em condições de estresses, é liberada durante o trabalho de parto, ela pode desacelerar ou parar o trabalho de parto, diminuir a ação das endorfinas (aumentando a sensação dolorosa) e diminuir o fluxo sanguíneo para o útero, o que consequentemente diminui a oxigenação do bebê. Se um mamífero em trabalho de parto se sente ameaçado, ele dificilmente dará à luz. Por isso que muitos animais mamíferos vão ter seus filhotes em lugares escondidos, onde se sintam seguros e ninguém possa observar ou interferir. Somente depois de dias encontramos a mamãe com seus filhotinhos.

A amamentação é também um processo natural e primitivo. A prolactina é o principal hormônio para a produção do leite e a ocitonina atua na saída do mesmo. Quando o bebê suga, os níveis de ocitocina estão em alta. O nível de endorfinas chega ao máximo em vinte minutos de amamentação, gerando prazer e relaxamento para mãe e bebê, pois são liberados no leite materno.

Nossa sociedade precisa apreciar mais e interferir menos na perfeição da orquestra, que é o processo de parir. Quem quiser saber mais sobre o hormônio do amor, sugiro a leitura do livro “A Cientificação do Amor”, do autor Michel Odent e o filme “Parto Orgásmico”.

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