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quarta-feira, 14 de julho de 2010

Bebê: Um mundo que muda nosso mundo


A impressão que o nascimento causa às mães e aos bebês pode variar bastante conforme as condições em que o parto aconteceu.

O nascimento é um ritual de passagem sagrado. Ao mesmo tempo, garantiu que continuássemos existindo como sociedade e se manteve como uma das vivências humanas mais primitivas e animais.

Como pediatra, tenho a oportunidade rara de acompanhar o nascimento e o início do crescimento e desenvolvimento de muitas crianças. Fico pensando que elas chegam ao mundo com características das suas famílias. Mas também com uma infinidade de possibilidades e diferenças que, quando bem exploradas, poderão possibilitar o surgimento de um novo ser com uma forma particular de ver a vida.

E de viver de modo diferente o dia-a-dia, o que tanto já contribuiu para que a sociedade mudasse e se desenvolvesse. Nós nos unimos pelas nossas semelhanças, e as nossas diferenças compartilhadas formam o universo que torna tão rico viver em grupo. Meu trabalho como pediatra se baseia nesse princípio.

Começamos a nossa trajetória completamente diferentes – e a maior lição de humanidade que vamos ter talvez seja esta: nos entregarmos aos cuidados das nossas mães.

Mães que tiveram em algum momento a generosidade de nos permitir habitar seus corpos, tomar seu leite, tirar seu sono e tantas outras coisas. Pode acontecer que os bebês sejam responsabilidade do grupo, mas são as mães que vão levar a vida diária com seus filhos. Devemos valorizar o conhecimento interior – chamado animal, intuitivo ou seja lá o que for – para entender como as mães vêem e percebem as necessidades do seu bebê, por mais diversas e sofisticadas que sejam. O que significa também valorizar a mulher nas suas diferenças, que poderão ser reconhecidas nos seus filhos sem que eles se sintam estranhos por pensarem ou sentirem coisas diferentes. Estou falando do indivíduo sério no seu jeito de ser e coletivo na forma de viver seus sentimentos.

Não há monotonia nesta humanidade que se identifique nos sentimentos grupais e se respeita na forma individual de expressá-los.

Atingir a maturidade é pura arte. É criar, concluir uma obra, transformar. Conviver com as dúvidas, os medos sagrados, procurar a libertação, o distanciamento crítico e tantas outras questões.

Quando vejo um bebê, me pergunto o que ele estará vendo, sentindo, cheirando, percebendo, saboreando?

Sempre imagino como um ser extremamente sensorial, perspicaz, capaz de encantar ou se apavorar com um pequeno detalhe.

Um bebê é tão forte no grito quanto delicado nas emoções. Cheio de inúmeras possibilidades.

Queria tanto poder garantir a possibilidade de ele ser livre e escolher amorosamente como vai viver, respeitando a si mesmo e respeitando os outros, amando a si mesmo e amando os outros.

(O respeito por si próprio se revela e se completa no respeito pelos outros; o amor pode ser dirigido a alguém ou a si mesmo.)

Acho que o mundo se transforma a partir de casos simples.

Facilitar a aproximação incondicional das mães com seus bebês é resgatar o vínculo mais importante e prematuro da humanidade.

Não permitir nem considerar natural o afastamento entre mãe e o bebê é lutar por uma ordem social que respeita as nossas necessidades de seres humanos.

Reconheço nos pais um conhecimento oculto a respeito de seus filhos, que pode se expressar desta forma: garantindo que o nosso mundo possa ser vivido e aceito como correto quando se baseia em um sentimento de amor construtivo. É exatamente esse o mundo que eu busco.


Postado por Carlos Eduardo Corrêa

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