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domingo, 21 de março de 2010

Placenta: Conheça melhor sua aliada

Por Patrícia Serafim

Essa matéria eu encontrei no site da Amigas do Parto e achei interessante postar, para entendermos melhor como a placenta funciona.


01 de Março de 2010

Dentro do útero, o bebé desenvolve-se à custa de um sistema que é constituído pela placenta, cordão umbilical e bolsa de líquido amniótico. Neste líquido o bebé organiza alegremente as suas actividades diárias. A placenta é um órgão transitório que se forma com o embrião e cuja localização correta e normal funcionamento são essenciais para um bom desenvolvimento da gravidez, do parto e do pós-parto imediato.

A forma da placenta assemelha-se à de uma panqueca com 2 a 4 cm de espessura, de consistência esponjosa, que se une à parede uterina no lado materno e ao feto pelo cordão umbilical, que dela emerge, normalmente ao centro. No final da gestação, a placenta atinge cerca de 500 gramas, sendo o órgão responsável pela manutenção da gravidez, ao produzir hormônios com ela relacionadas, como a gonadotrofina coriónica (HCG), o estrogénio e a progesterona.

A placenta funciona como um filtro entre o sangue materno e o sangue fetal, possuindo circulação materna de um dos lados e circulação fetal do outro, ambas separadas por uma barreira membranosa. Quando o sangue fetal atravessa o cordão umbilical e percorre a placenta, recebe nutrientes e oxigénio do sangue materno e libera dióxido de carbono e produtos de degradação fetal (ureia, creatinina, ácido úrico) para a circulação materna, regressando ao feto para novamente o alimentar, oxigenar e purificar. Algumas substâncias, como os lípidos, não chegam sequer ao feto, uma vez que o fígado deste não tem capacidade metabólica durante a maior parte da gravidez. Os lípidos são, então, armazenados na placenta até às últimas 10 semanas da gestação, altura em que o fígado fetal começa a funcionar, sendo, a partir daí, lentamente libertados para a circulação fetal.


Três em um

É por estas e por outras razões que se considera a placenta um órgão extremamente complexo, pois desempenha para o feto múltiplas funções, que no adulto implicam a existência de pulmões, rins e fígado (e é a isto que se pode chamar 3 em 1!).

Este filtro, apesar de permeável à maioria das substâncias, tem alguma capacidade seletiva, não permitindo a passagem de insulina, heparina e dióxido de carbono, substâncias nocivas para o feto. Também para algumas infecções como a toxoplasmose, a infecção a citomegalovírus e mesmo a provocada pelo HIV, a placenta exibe notáveis funções protetoras, reduzindo, de forma significativa a transmissão vertical (a que acontece entre mãe e filho). Infelizmente, o álcool e as drogas passam da circulação materna para a fetal. O tabaco também afecta o desenvolvimento fetal, não só por comprometer a normal oxigenação fetal, como por aumentar a incidência de abortos do segundo trimestre e de descolamento prematuro da placenta (ver à frente), entre outras complicações graves da gravidez. Os medicamentos também atravessam a barreira placentar, daí a razão pela qual muitos estão contra-indicados. Uma aliada perfeita.

A placenta possui ainda a extraordinária capacidade de permitir a aceitação pacífica por parte da mãe, de um hóspede com composição genética, em 50% estranha (50% da mãe e 50% do pai). Tendo em conta a conhecida dificuldade em encontrar um dador compatível para transplante de órgãos e posteriormente impedir a rejeição do órgão transplantado por parte do hospedeiro (ser que recebe o órgão), é de fato notável que um ser humano completo se forme, desenvolva e cresça, ao longo de 9 meses, sem ser identificado como um elemento estranho a destruir pelo sistema imunológico da mãe. Tal facto deve-se à não existência de contacto directo do sangue fetal com o materno, pelo que a placenta não só impede o reconhecimento do feto como um «alvo a abater», como lhe possibilita um confortável estatuto de inquilino, com cama, comida e «pele» lavada.

Placenta prévia

Quando a placenta se insere na porção inferior do útero, cobrindo parcial ou completamente o orifício interno do colo uterino (porta de saída da cavidade uterina), diz-se estar na presença de placenta prévia. No entanto, se lhe disserem que a sua placenta é prévia na ecografia do 2º trimestre (entre as 20 e as 22 semanas de gravidez), isso não significa que tal se verifique no final da gravidez. Com efeito, das cerca de 40% das placentas consideradas prévias nessa idade gestacional, apenas 1 a 4% serão prévias no termo da gravidez. O diagnóstico de placenta prévia é feito através de ecografia com sonda endovaginal (colocada na vagina, permitindo observar o orifício interno do colo uterino). Esta situação acontece uma vez em cada 200 gravidezes. Pode manifestar-se clinicamente por hemorragia vaginal, estando associada a parto pré-termo e implica intervenção obstétrica, com recurso a cesariana.


Placenta acreta


Se a placenta se insere na cavidade uterina, mas se desenvolve em profundidade, atingindo as camadas musculares da parede uterina, adquire a designação de acreta. Se a penetração do tecido placentar na parede uterina for profunda, pode impossibilitar a dequitadura (saída da placenta) após o parto, provocando hemorragia incontrolável da mãe. Nestas circunstâncias, é muitas vezes necessário proceder a uma histerectomia (remoção cirúrgica do útero) para controlo hemorrágico materno. No entanto, existem alternativas terapêuticas que podem ser usadas nalguns casos seleccionados.



Descolamento de placenta ou Abruptio placenta


É uma situação grave que ocorre quando a placenta se separa da parede uterina, antes ou durante o trabalho de parto. Esta situação ocorre apenas em 1% das gravidezes e é mais frequente nas últimas 12 semanas da gestação. Está associada a consumo de cocaína, tabagismo, pré-eclâmpsia (subida da tensão arterial acompanhada de inchaço por retenção de fluidos e mau funcionamento renal), traumatismos significativos e também placenta prévia. No entanto, na maioria das vezes, surge em grávidas sem factores de risco aparentes. Clinicamente, pode manifestar-se por hemorragia vaginal e/ou dor abdominal, não necessariamente relacionada com as contrações uterinas.


Cuide bem dela!


Embora a placenta seja o «anjo da guarda» que alimenta, purifica e oxigena o seu filho enquanto você ainda não o conhece, para que ele cresça e se desenvolva de forma harmoniosa e saudável é necessário que também a sua placenta esteja de plena saúde e não se precipite a tentar abandonar o útero antes do seu filho.


A verdade é que, mesmo antes do nascimento, as boas companhias já são muito importantes e nesta amizade entre o feto e a placenta, a lealdade é, sem dúvida, um valor que deve ser respeitado até ao fim.

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