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segunda-feira, 22 de março de 2010

Entrevista sobre os bancos de sangue de cordão umbilical

VANDERSON ROCHA

Clínicas vendem propaganda enganosa

Diretor da rede europeia de bancos de cordão critica congelamento privado

DEFENSOR DOS bancos públicos de sangue de cordão umbilical, o hematologista mineiro Vanderson Rocha, 44, é categórico sobre o congelamento feito em clínicas particulares: "É propaganda enganosa". Para ele, os bancos privados vendem uma "garantia de saúde" que não existe. "A possibilidade de que isso [o uso das células do próprio paciente] ocorra é mínima."

Divulgação

O hematologista mineiro Vanderson Rocha, que vive na França
Ele afirma que dificilmente uma criança com leucemia poderá ser tratada com as próprias células -que provavelmente terão o mesmo problema. Além disso, se o paciente for adulto, a quantidade de células congeladas após o nascimento não é suficiente para pessoas com mais de 40 kg. O sangue de cordão umbilical é usado em pacientes que precisam de um transplante de medula óssea, mas não encontram doador na família nem em registros de voluntários. Referência internacional em transplantes de medula, Rocha vive na França, onde comanda há 15 anos o Eurocord (registro europeu de pacientes transplantados com sangue de cordão umbilical, que inclui a rede de bancos de cordão). Antes de vir a São Paulo para um simpósio durante a inauguração do sexto banco público de sangue de cordão do país, no Hospital Sírio-Libanês, Rocha falou à Folha.


FOLHA - Para quais doenças há comprovação científica dos benefícios do uso de células do sangue de cordão umbilical?

VANDERSON ROCHA - Elas podem ser utilizadas no tratamento das doenças hematológicas com indicação de transplante de medula. São leucemias, linfomas, aplasias medulares e doenças genéticas, como a anemia falciforme.


FOLHA - Quais as chances de um paciente encontrar um doador compatível dentro da própria família?
ROCHA - Em torno de 25% a 30%. Quando se buscam doadores em registros em todo o mundo, onde há cerca de 13 milhões de doadores "virtuais", a chance sobe para 60%. Com o sangue de cordão, essa possibilidade é de mais de 90%, pois podemos realizar o transplante com menor compatibilidade entre receptor e doador.


FOLHA - Quantos transplantes foram feitos no mundo usando as células do cordão?
ROCHA - Cerca de 25 mil -nos últimos três anos, foram em torno de 3.000 por ano.


FOLHA - Até 2008, o Brasil possuía 16 clínicas privadas, que somavam quase 26 mil unidades de sangue de cordão congeladas, e apenas cinco bancos públicos, com 7.000 unidades. Vale a pena pagar para congelar o sangue do cordão?
ROCHA - Há dois motivos para congelar o sangue do cordão: um para o uso alogênico [em outros pacientes], que depende da doação voluntária dos pais; e o outro, que é a grande controvérsia, é o uso autólogo [no próprio paciente]. Os pais pagam uma taxa anual para congelar o sangue do filho. Nesse tipo de banco, isso é "vendido" como uma garantia de saúde. Mas a possibilidade de que isso ocorra é mínima. Sou contra as campanhas enganosas que esses bancos propagam.


FOLHA - Adultos geralmente precisam de duas bolsas. Como fica a situação do congelamento particular nesses casos?
ROCHA - Essa é outra desvantagem do congelamento autólogo. No caso de doenças em adultos, dificilmente a quantidade de células congeladas ao nascimento será suficiente. O que fazemos hoje são transplantes alogênicos, usando bolsas de sangue de dois cordões. Mas, de dois anos para cá, médicos observaram que há células muito primitivas no sangue do cordão, chamadas IPS. Essas células são muito imaturas e parecem poder se diferenciar em outras, como neurônios, ossos, cartilagens e músculos. E aí surge a controvérsia toda. Atualmente, não existe nenhum estudo clínico em que essas IPSs sejam utilizadas. Os bancos privados estão se aproveitando dessa controvérsia e vendem essa promessa, como se as células do cordão fossem uma fonte para curar qualquer doença. Isso é enganoso.



FOLHA - Há possibilidade de, no futuro, as células congeladas em bancos privados serem usadas para tratar doenças hematológicas e outras doenças no próprio paciente?
ROCHA - É muito pequena a possibilidade de usar as células do sangue de cordão em caso de doenças hematológicas, principalmente as leucemias ou os linfomas, que venham a ser diagnosticadas no futuro. Primeiro porque essas doenças são relativamente raras e muitas vezes podem ser curadas com quimioterapia ou transplante de medula óssea. Segundo porque um estudo recente mostrou que a probabilidade de se precisar de um transplante autólogo aumenta após os 40 anos de idade (de 0,2% a 0,9%). Dessa forma, não há nenhuma indicação atual para se coletar e congelar as células do sangue do cordão para o próprio uso. É como comprar um lote na Lua: as empresas dizem que a Terra vai acabar e você compra um lote na Lua. Qual a possibilidade de isso acontecer de verdade?


FOLHA - Se a chance de usar essas células em um transplante autólogo é pequena, por que as clínicas privadas ainda têm tanto apelo?
ROCHA - Porque a gravidez é um momento de fragilidade, em que os pais querem o melhor para os filhos, e os bancos privados se aproveitam dessa situação para ganhar dinheiro. Existem muitas clínicas privadas no mundo todo -juntas, elas somam mais de 1 milhão de unidades congeladas. Para transplante alogênico, há cerca de 400 mil bolsas congeladas.


FOLHA - O Brasil está integrado à rede mundial de bancos de cordão?
ROCHA - Ainda não. Para participar do programa Netcord, é preciso ter um certificado de acreditação e, por enquanto, nenhum banco brasileiro tem esse certificado. O Brasil pode procurar doadores nos bancos internacionais, mas não consegue exportar bolsas congeladas para pacientes estrangeiros.


Um comentário:

maira disse...

Muito interessante!
Pena que é pouco divulgado!