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quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Por que razão não querem dormir sozinhos ?

Onde dormiam os bebés há 100 000 anos? Não existiam casas, nem berços, nem roupa. Certamente que dormiam junto à mãe ou sobre ela, numa cama de folhas improvisada. O pai não devia dormir muito longe, e a tribo inteira permanecia apenas a alguns metros de distância. Só assim conseguiam sobreviver durante o sono, o momento mais vulnerável do dia. Recordação daqueles tempos é o hábito de marido e mulher dormirem juntos e a desolação (por vezes verdadeira insónia) que nós, adultos, costumamos sentir quando uma viagem nos obriga a dormir separados do nosso parceiro habitual. Muitas mães, se o marido dorme fora de casa, deixam que os filhos venham para a sua cama e não é fácil dizer qual dos dois encontra mais consolo com a companhia.

Imagina um bebé sozinho, nu, a dormir no chão e ao ar livre, a cinco ou dez metros da mãe durante seis ou oito horas seguidas? Não teria sobrevivido. Tinha de existir um mecanismo para que, também de noite, o bebé permanecesse em contacto continuado com a mãe, e de novo este mecanismo é duplo: a mãe deseja estar com o filho (exactamente, apesar de todos os tabus contra, muitas mães ainda o desejam) e a criança resiste violentamente a dormir sozinha.


Dormir sozinho! O grande objectivo da puericultura do século xx! Como comentámos, uma criança a quem a mãe deixasse sozinha, acordada, no chão, que não protestasse imediatamente e que, ao contrário, adormecesse, dificilmente teria sobrevivido durante mais do que algumas horas. Se alguma vez existiram crianças assim, extinguiram-se há milhões de anos (bem, nem todas. Fala-se de crianças que dormem durante toda a noite, espontânea e voluntariamente. Se a sua é uma dessas raras crianças, não se assuste; certamente que também é normal). Os nossos filhos estão geneticamente preparados para dormir acompanhados.


Para um animal, o sono é um momento de perigo. Os nossos genes impelem-nos a mantermo-nos despertos quando nos sentimos ameaçados e a deixarmo-nos levar pelo sono apenas quando nos sentimos seguros. Sentimo-nos ameaçados num lugar desconhecido, e muitas pessoas têm dificuldade em dormir em hotéis porque «estranham a cama». Custa-nos dormir na ausência do nosso companheiro ou na presença de desconhecidos.


Você precisava de mudar de comboio numa cidade distante e perdeu a última ligação. São duas da manhã, está tudo fechado e é obrigada a esperar pelo comboio das seis na estação. Imagine agora várias situações possíveis: a) encontra-se absolutamente sozinha na sala de espera; b) viaja sozinha, mas na sala há uma dezena de pessoas, duas famílias completas, algumas senhoras mais velhas, um grupo de escuteiros; c) na sala encontra-se você e cinco skin heads meio embriagados; d) você viaja na companhia do seu marido e de outros casais amigos. Acha que adormeceria do mesmo modo em cada uma das circunstâncias?


Estranhos na noite


Xavier, com dezoito meses, «tem dificuldade em dormir». Chama a mãe, Maria, várias vezes: quer ouvir uma história, reclama um copo de água, tem dói-dói... Cada noite se converte numa tortura para toda a família. «Zanga-te», dizem todos, «devias deixá-lo chorar, não lhe fazia mal». Hoje, Maria e Xavier foram visitar os avós numa aldeia isolada. O pai trabalha e não pôde acompanhá-Ios. Têm de mudar de autocarro numa pequena cidade, antes uma vila grande. Mas o autocarro que vem da capital atrasa-se várias horas, e Maria e o filho são os únicos passageiros que descem na solitária estação de autocarros à uma e meia da madrugada. O autocarro que os conduzirá até à aldeia onde moram os avós não sairá antes das sete e meia da manhã. Mãe e filho encontram-se sozinhos na sala de espera mal iluminada. A estação dos autocarros situa-se nos arredores da vila, separada das ruas habitadas por algumas hortas e por uma zona de fábricas e armazéns. Maria não se atreve a ir a pé até à vila. Junto da estação há uma bomba de gasolina, pedirá ao encarregado que lhe chame um táxi, deve haver um hotel na vila... Tem dinheiro suficiente? Descobre com horror que apenas tem dinheiro para o autocarro e que se esqueceu de trazer consigo o cartão de crédito. Bom, faltam apenas cinco horas, será melhor esperar aqui. A luz acesa na bomba de gasolina transmite-lhe uma certa confiança. Quase preferia ir até lá para esperar, mas está frio na rua.


De vez em quando passa um automóvel veloz ou, das fábricas, chega o ladrar de um cão. Perto das três horas, aparecem cinco motards com blusões de couro, param entre a estação de autocarros e a bomba de gasolina e começam a beber cervejas, enquanto gritam e lutam uns com os outros. De vez em quando, um deles aproxima-se ostensivamente da estação de autocarros e começa a urinar numa árvore, enquanto os outros gritam «<És estúpido, Paco, não vês que está aí uma senhora?», «Não olhe minha senhora, não vale a pena! É muito pequeno!»). E esta situação dura mais de uma hora e meia.


É claro que Maria passou as horas acordada, sentada na cadeira mais perto da porta, agarrada ao filho e à mala. Xavier, contudo, dormiu ao colo dela, num só sono. Quem tem agora «dificuldade em dormir»? Ao colo da mãe, numa vila longínqua, rodeado de desconhecidos hostis, Xavier sentiu-se mais seguro do que em sua própria casa, no seu quarto, na sua cama. Para uma criança desta idade, a Mamãe é a Supermamãe, a Protetora lnvencível. Esse colo é o seu lar, a sua pátria, o seu paraíso. Não é maravilhoso, Mamãe, sentir-se assim?


Na noite dos tempos


Naquela tribo, há 100 000 anos, duas mães foram dormir com os filhos. Não sabemos
exatamente como o faziam, mas sabemos o que fazem atualmente os chimpanzés: ao cair da noite, cada adulto prepara um leito macio com folhas e ramos e deita-se para dormir. Os chimpanzés não possuem camas de casal, o macho e a fêmea dormem separados (ainda que não muito afastados, é claro; na tribo, todos dormem perto uns dos outros). É Claro que a mãe e o filho dormem juntos até que este complete cerca de cinco anos.


À meia-noite, aquelas duas mulheres primatas acordaram; por motivos que desconhecemos, afastaram-se, deixando os filhos no solo. Uma das crianças era daquelas que acordam a cada hora e meia; a outra era das que dormem durante toda a noite, num só sono. Qual das duas crê que nunca mais acordou? Ou então acordaram ambas ao mesmo tempo, mas uma delas começou a chorar imediatamente e a outra apenas depois de cerca de três horas, quando começou a sentir fome. Qual delas morreu de fome? Uma começou a chorar imediatamente, enquanto a outra permaneceu calada até que o aparecimento de uma hiena a assustou. Qual delas terá a hiena comido? Uma delas, quando começava a chorar, só parava quando a mãe voltava e a acalmava; podia chorar meia hora, uma hora, todo o tempo necessário, até à exaustão. A outra, pelo contrário, chorava durante alguns minutos e, se ninguém aparecia, voltava a adormecer. Qual das duas dormiu para nunca mais despertar?




Adivinhou: os nossos filhos estão geneticamente preparados para acordar periodicamente. Os nossos filhos herdaram os genes dos sobreviventes, dos vencedores da dura luta pela vida.


Não dormem de um só sono, pelo contrário, passam, como os adultos, por vários ciclos de sono durante a noite. A duração de cada ciclo é variável, entre apenas vinte minutos e um pouco mais de duas horas; a duração média vem a ser de hora e meia nos adultos, mas apenas de uma hora nos bebés. Entre cada ciclo, passamos por uma fase de «despertar parcial», que facilmente se torna despertar completo.


Mesmo os especialistas que «ensinam as crianças a dormir» reconhecem esse fato: o objetivo dos seus métodos não é conseguir que a criança não acorde, isso é impossível. O que querem é que, quando acorda, em vez de chamar pelos pais, se mantenha calada até voltar a adormecer.


As crianças «estão de guarda» para se certificarem de que a mãe não se foi embora. Se o bebé consegue cheirar a mãe, tocar-lhe, ouvir a sua respiração, talvez mesmo mamar, volta a adormecer de seguida. Em muitas das vezes, nem a mãe nem o bebé despertam completamente. Mas, se a mãe não está, a criança acorda completamente e começa a chorar. Quanto mais tempo tiver chorado antes que a mãe lhe acuda, mais nervosa estará e também mais difícil de consolar.




Um planeta, dois mundos


Noutras culturas, dormirem todos juntos é praticamente universal (e os problemas de sono durante a infância, em consequência, praticamente desconhecidos). Morelli e os seus colaboradores estudaram em pormenor o comportamento e as opiniões de um grupo de 14 mães guatemaltecas de etnia maia e compararam-nos com os de 18 mães norte-americanas brancas de classe média.


Todas as crianças maias (entre os dois e os vinte e dois meses) dormiam na cama com a mãe, e oito também com o pai. Outros três pais dormiam no mesmo quarto, noutra cama (dois deles com outro filho mais velho) e em três casos o pai estava ausente. Em dez casos havia outro irmão a dormir no mesmo quarto, quatro deles na mesma cama; as outras quatro crianças não dormiam com os irmãos porque eram filhos únicos.


As crianças maias permaneciam com a mãe e mamavam quando queriam até aos dois ou três anos, pouco antes do nascimento de um irmão. Normalmente, as mães não sabiam se o filho mamava durante a noite, porque não acordavam e parecia-lhes que o assunto não tinha importância (pelo contrário, 17 das 18 mães norte-americanas tinham de acordar para alimentar o filho, a maioria durante seis meses, e as 17 afirmaram que as mamadas noturnas eram um aborrecimento).


Entre os maias não existia uma rotina para fazer dormir as crianças. Sete iam dormir ao mesmo tempo que os pais e as outras adormeciam no colo de alguém. As 10 que ainda mamavam adormeciam a mamar. Não se contavam histórias para dormir nem se lhes dava banho antes de se deitarem. Apenas uma das crianças possuía uma boneca com a qual dormia; era a única que não tinha dormido com a mãe desde o nascimento e que tinha passado uns meses a dormir num berço no mesmo quarto, para logo regressar à cama materna.


As mães maias não concebiam que as crianças pudessem dormir de outro modo. Quando se lhes explicava que as crianças norte-americanas dormiam num quarto separado, mostravam surpresa, desaprovação e compaixão. Uma exclamou: «Mas fica alguém com eles, não é verdade?» Partilhar a mesma cama não é uma consequência da pobreza ou da falta de quartos, considera-se fundamental para a educação correta da criança. As mães explicavam, por exemplo, que, para dizer a uma criança de 13 meses para não mexer em determinada coisa, bastava dizer-lhe «Não lhe mexas, não é bom, pode fazer-te dói-dói» e a criança obedecia. Quando lhes explicávamos que as crianças norte-americanas dessa idade não compreendiam proibições ou que faziam mesmo o contrário, uma mãe maia sugeriu que essa era a consequência de as ter separado dos pais durante a noite.


É apaixonante comparar como se criam as crianças em diferentes culturas. Uma antropóloga norte-americana, Meredith Small, escreveu um livro imprescindível sobre este tema (Our babies, ourselves)






Do livro Besame Mucho - Carlos González

2 comentários:

paollinha19 disse...

Oi Paulinha! Eu também pratico cama compartilhada e amo!

O Arthur dorme bem, a noite toda desde sempre e é uma delícia dormir pertinho dele!

beijo grande

Roberta disse...

O Bê adora tb dormir na minha cama, rs!

Depois que ele ficou dodói, 38.8º :(

ñ tiro mais ele da minha cama!!!!!rs

Bjosssssssssssssss, amei a matéria!